Entrevista: Artur Gil – Universidade dos Açores

Artur Gil Sensoriamento

Leia agora a décima sexta entrevista da série onde estamos conversando com profissionais da área de Geoprocessamento que atuam em diferentes regiões do Brasil e do mundo! Eles estão relatando um pouco sobre sua própria história no mercado, comentando sua visão sobre o cenário das Geotecnologias onde vivem, e algo mais. Nosso entrevistado da vez é o português Artur Gil, um constante colaborador da comunidade Luso Brasileira de Geoinformação.

Entrevista: Artur Gil – Luso GISArtur Gil é natural de Castelo Branco (Portugal) e reside há vários anos em Ponta Delgada (Arquipélago dos Açores, Portugal). É formador na área das Ciências e Tecnologias de Informação Geográfica desde 1999, tendo desenvolvido desde aí atividades em vários institutos públicos, empresas privadas, organizações não governamentais e centros de investigação. É Doutor em Ciências Ambientais na linha de pesquisa, atualmente em desenvolvimento na Universidade dos Açores, centrada no uso e desenvolvimento de técnicas de Deteção Remota e de Modelagem de Dados para apoio à decisão no planeamento ambiental e gestão territorial em ilhas oceânicas, usando os arquipélagos dos Açores, da Madeira, das Canárias e de Cabo Verde como casos de estudo.

1. Há quanto tempo você trabalha com Geotecnologias e como foi seu primeiro contato com esta área tão empolgante?

Bom dia a todos! Trabalho com Geotecnologias desde 1999, ano no qual iniciei a minha atividade profissional na Universidade de Girona (Espanha), no âmbito de um estágio profissional Leonardo da Vinci no SIGTE. O meu primeiro projeto SIG nesta entidade foi a elaboração da análise espacial para um Estudo de Impacto Ambiental de uma linha férrea na região da Catalunha, usando o software Idrisi 2. Começou tudo aí.

2. Você fez algum curso na área de Geoprocessamento? (Pode também citar onde, e se possível algumas características do curso)

O único curso que fiz totalmente centrado na área de Geoprocessamento foi a Pós-graduação UNIGIS da Universidade de Girona (Espanha), que vai de acordo com os critérios de qualidade e excelência do consórcio UNIGIS (www.unigis.net). Esta pós-graduação estava centrada sobretudo no desenvolvimento de capacidades para criar, estruturar e gerir um Sistema de Informação Geográfica.

A área de formação na qual tenho apostado mais fortemente nos últimos 5 anos (desde que iniciei o Doutoramento em 2008) é a Deteção Remota aplicada, o que me permitiu frequentar até agora os principais cursos internacionais promovidos pela ESA – Agência Espacial Europeia. A minha formação base em engenharia e Geoprocessamento foi fundamental para a minha entrada no domínio da Detecção Remota, pelo facto de necessitar cada vez mais de dados melhores e mais atualizados.

3. Qual sua opinião sobre o cenário atual das Geotecnologias no Brasil? Considera que há boas perspectivas para os profissionais?

No que diz respeito a Portugal, muito mudou desde 1999 em termos de dinâmicas e paradigmas. Passámos de um cenário em que praticamente toda a gente que trabalhava em Geoprocessamento o fazia sobretudo na perspectiva de utilizador, usando ArcView 3, Mapinfo ou Geomedia (os três softwares mais populares na altura) para o cenário de hoje que é completamente diferente, em que há especialistas portugueses de topo (globalmente falando) no desenvolvimento de aplicações SIG, sobretudo de Software Livre. A mobilidade intra-europeia também tem acelerado este processo. A criação de comunidades virtuais como a LusoGIS em 2003 ou a OSGEO-PT mais recentemente foram fundamentais para criar e fomentar esse espírito comunitário que tem servido os propósitos de todos e atraído cada vez mais gente para esta área.

Diria que a nível europeu, Portugal progrediu muito em termos de massa crítica mas infelizmente, devido a mas apostas governativas (falta de estratégia, fusões de institutos e competências mal definidas) também regrediu em termos do impacto real das instituições públicas representativas na área do Geoprocessamento. Lembro-me que por volta de 2000, o SNIG – Sistema Nacional de Informação Geográfica de Portugal era considerado um caso de estudo de sucesso a nível europeu, ainda no advento das IDE – Infraestruturas de Dados Espaciais. Neste momento, Portugal está muito longe de ser vanguardista – bem pelo contrário – estando ainda a anos-luz das melhores práticas europeias em termos de políticas de disponibilização de dados à comunidade (pagos com dinheiros públicos) e de promoção do uso de Software Livre na Administração Pública (nem que seja para redução parcial das despesas do Estado).

Geoprocessamento

Quanto ao Brasil, tenho um contacto com a sua “geo-realidade” que remonta a cerca de 2000 (há cerca de 13 anos), altura na qual participava na lista de discussão pioneira FatorGIS, que era excelente e contava com as principais referências profissionais e acadêmicas da área. Em 2003 criei a LusoGIS (lista de discussão lusófona de Ciências e Tecnologias de Informação Geográfica) e desde o princípio sempre houve um contributo pertinente por parte de colegas brasileiros. Quer do ponto de vista do Geoprocessamento, quer do ponto de vista da Deteção Remota (sobretudo pela ação do INPE devido à visão estratégica do Gilberto Câmara), sempre vi o Brasil como um país de top mundial nestes dois domínios associados. A popularização do Software Livre veio ainda conferir maior destaque global aos profissionais brasileiros, sempre atentos às novas tendências e com grande capacidade para trabalharem em comunidade. Noto ainda um elevado espírito empreendedor (pela materialização de interessantes modelos de negócios em pequenas mas eficientes empresas) por parte de muitos colegas brasileiros.

No conjunto, penso que ambas as comunidades estão no bom caminho e a tendência de curto/médio prazo é fundirem-se gradualmente numa só para aproveitarem todo o potencial criativo e empresarial que a lusofonia oferece neste sector. Espero que as políticas públicas possam acompanhar esta tendência, ou pelo menos não atrasá-la ou bloqueá-la. Seria por exemplo fantástico que Portugal passasse a ser um consumidor habitual das imagens CBERS-4 (assim que estiverem disponíveis), constituindo um pólo de promoção deste produto (que se prevê de excelência) na Europa. É apenas um pequeno exemplo do muito que pode ser feito nesta área em termos de cooperação entre ambos os países (ou no interior da própria CPLP) com baixos custos.

4. O que você acha que seja fundamental para que um profissional consiga um bom espaço no mercado de trabalho no campo da Geoinformação?

Eu costumo dizer que a receita é a mesma para qualquer profissão: motivação e curiosidade constantes, estudo e formação contínuos para um conhecimento sólido e atualizado, capacidade de trabalho e também alguma imaginação para superar os problemas mais complexos que nos vão aparecendo pela frente.

Na minha opinião, a formação base (técnica ou acadêmica) é importante mas é apenas o início de um longo caminho. Nesta área bastante tecnológica, o progresso é tão rápido e tão grande que a única maneira de estar atualizado é estar constantemente ligado às grande e mais dinâmicas comunidades de analistas, utilizadores e “desenvolvedores”.

5. Com quais softwares dos vários segmentos do Geoprocessamento você tem trabalhado, desde o início de sua carreira até hoje (comerciais e livres)?

GISIniciei o meu “geo-percurso” com o Idrisi 2 (ClarkLabs). Foi importante começar com este software porque “obrigava” o utilizador a saber exactamente o que pretende em cada passo, não bastando apenas “clicar no botão”. No SIGTE (U. Girona, Espanha) também trabalhei com ArcInfo da ESRI, que era um software muito robusto mas complexo.

Depois disso trabalhei muitos anos com o Arcview 3 da ESRI e as várias versões Idrisi que se foram seguindo à versão 2. Comecei a trabalhar com Software Livre de Geoprocessamento usando a versão 1.4 do Quantum GIS (QGIS). De há uns anos para cá tem sido essa a minha opção principal. Inclusive na Deteção Remota  aplicada o meu objetivo é trabalhar cada vez mais com Software Livre como o BEAM da ESA ou a ORFEO Toolbox que roda no Quantum GIS (que usei no meu Doutorado para segmentação de imagens). O melhor software é aquele com que rendemos mais, seja ele livre ou comercial.

6. O que diria sobre a potencialidade do uso de softwares livres de Geoprocessamento em ambientes de produção para os diversos ramos de atividade que fazem uso das Geotecnologias?

Pela sua versatilidade, robustez e fiabilidade, pessoalmente acho que a versão 2.0 Dufour, do QGIS, é um marco importante para a popularização e massificação definitiva do uso de software livre de Geoprocessamento em ambientes de produção. Conheço vários projetos europeus de grande dimensão com elevado grau de produção cartográfica que usam este software (QGIS) como aplicação base. O fato de podermos recorrer em qualquer lugar com ligação web e a qualquer hora do dia a uma extensa, sábia e solidária comunidade de utilizadores e de poder obter resposta positiva quase de modo imediato é uma vantagem inultrapassável.

7. Comente um pouco de como as Geotecnologias estão diretamente envolvidas com seu trabalho atual.

Treze anos depois, o uso e desenvolvimento de aplicações de geotecnologias continuam a ser o meu “ganha pão” e a minha principal atividade, embora agora ao nível científico que encerra desafios cada vez maiores e mais complexos, dado que a competitividade nesta área a nível acadêmico é agora global e não mais apenas regional/nacional.

Sensoriamento Remoto

O grande desafio da ciência aplicada às geotecnologias é produzir métodos, técnicas e ferramentas que permitam a este sector continuar a crescer e a progredir como tem acontecido até agora. É por isso uma das áreas científicas em que as universidades e a indústria estão mais próximas e mais colaboram, porque necessitam muito uma da outra, mas ainda há muita margem para uma sinergia maior e mais proveitosa para todos.

8. Você gostaria de fazer algum comentário adicional sobre o tema de nossa entrevista?

Queria agradecer o convite que me foi feito e desejar ao Anderson a continuação do excelente trabalho que tem desenvolvido em prol da promoção das tecnologias em toda a comunidade lusófona.

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Queremos agradecer ao Artur Gil por nos conceder esta entrevista que certamente agregou valor ao conteúdo de nosso site, em especial nesta série de entrevistas.

O que vocês acharam desta postagem? Já conheciam o trabalho desenvolvido por este relevante profissional da área de Geotecnologias? Deixem seus comentários.

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Consultor em Geotecnologias, graduado em Geoprocessamento. Instrutor de diversos cursos, presenciais e online, sobre Geotecnologias com Softwares Livres com ênfase em QGIS, gvSIG, PostgreSQL/PostGIS, MapServer e i3Geo.

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6 Responses to Entrevista: Artur Gil – Universidade dos Açores

  1. […] Leia agora a décima sexta entrevista de nossa série. Nosso entrevistado da vez é o português Artur Gil, um constante colaborador da comunidade Luso Brasileira de Geoinformação.  […]

  2. Ricardo Lima disse:

    Muito Obrigado!

    O trabalho de pessoas como o Artur Gil e o Anderson Medeiros é uma grande ajuda na difusão de conhecimento na área do geo-processamento.

    A vossa enorme generosidade e o vosso sentido de “cidadania global” mostram que podemos tornar o mundo num lugar melhor se trabalhar-mos juntos.

    • Artur Gil disse:

      Muito obrigado Ricardo Lima, um Excelente 2014 para si e os seus :)

  3. José Santos disse:

    Parabéns por esta entrevista ao Anderson e ao Artur. A comunidade lusófona só tem a ganhar com esta troca de conhecimento e ideias.

    Abraço
    José Santos

    • Artur Gil disse:

      Obrigado José Santos. Feliz Natal e um Excelente 2014 para si.

      • José Santos disse:

        Caro Artur, obrigado e também para si e família.

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