Entrevista: Luiz Amadeu – Geoinformação Online

Entrevista - Luiz Amadeu Coutinho

Esta é a quarta entrevista da série onde estamos entrevistando profissionais de Geotecnologias que atuam em várias regiões do Brasil e do mundo. Eles vão contar um pouco de sua história no mercado de trabalho, dar sua opinião pessoal sobre o cenário do Geoprocessamento onde vivem, e algo mais. Nosso entrevistado da vez é Luiz Amadeu Coutinho, que trabalha em Angola, no continente Africano.

Luiz Amadeu CoutinhoLuiz Amadeu Coutinho, geógrafo formado pela Universidade Federal do Espírito Santo, Mestre em SIG e Sensoriamento Remoto pela Universidade Nova de Lisboa. Atualmente trabalha como Consultor de Soluções GIS na Sinfic Angola. Além disso é autor do website Geoinformação Online e participante ativo da comunidade GIS nas Redes Sociais.

1. Há quanto tempo você trabalha com Geotecnologias e como foi seu primeiro contato com esta área tão empolgante?

Como o tempo passa rápido, já são 12 anos de contato direto com as Geotecnologias. Vou contar uma história que poucos conhecem.

Meu primeiro contato (indireto) foi praticamente uma profecia. Eu trabalhava como estagiário em uma loja de informatica e a dona da loja, um dia, estava lendo o jornal e virou pra mim e me mostrou um anuncio de emprego e disse “Você devia estudar Geoprocessamento, isso é o futuro”. E o anúncio era sobre contratação de Técnico em Geoprocessamento. Na época não dei importancia, pois nunca tinha ouvido falar nisso.

Onde comprar Livros sobre Geoprocessamento, SIG e Sensoriamento Remoto?

Anos mais tarde, quando entrei na faculdade de Geografia da UFES ao ver a grade do curso, tava lá o tal do Geoprocessamento no meio, pesquisei um pouco na biblioteca e foi paixão à primeira vista. Decidi que isso ia ser minha área de interesse.

Meu primeiro contato real aconteceu no 4º período do curso com uma professora fantástica chamada Hideko Nagatani Feitoza que tinha feito mestrado em SIG na Holanda. Foi incrível poder produzir mapas com o bom e velho ArcView 3.0. Depois disso entrei como estagiário no Laboratório de Topografia e Cartografia da UFES, posso dizer que ali aprendi de verdade como as Geotecnologias podiam e eram utilizadas para resolver problemas do mundo real. Trabalhava com uma equipe multidisciplinar que envolvia Engenheiros Civis, Geólogos, Arquitetos e um Analista de Sistemas.

2. Você fez algum curso na área de Geoprocessamento? (Pode também citar onde, e se possível algumas características do curso).

Apesar da formação em Geografia é de conhecimento que o GIS é apenas uma parte da formação de um Geógrafo.

Cursos específicos eram e ainda são dificieis de encontrar na minha cidade (Vitória-ES), meu primeiro curso de verdade foi depois de formado e já trabalhando como consultor. Fiz um curso de Construção de Geodatabases, dentro do cliente onde eu atuava. Foi muito bom aprender os conceitos de criação e Gestão de Banco de Dados Geográficos de maneira prática.

Muito do meu aprendizado, foi independente, tornei-me um autodidata  por falta de opção ou de dinheiro mesmo. Acho que muitos de nós na área de Geotecnologias trilharam o mesmo caminho, não tinhamos a oferta de informação, de blogs e tutoriais que existem hoje na internet (alias internet eu só fui ter em casa lá pelos idos de 2003). Hoje claro temos abundância de conteúdos e de cursos, o que ajuda bastante na formação.

3. Qual sua visão sobre o cenário atual das Geotecnologias no Mundo (América/África, Europa…)?

GeoprocessamentoAcho que estamos vivendo uma época de ouro nas Geotecnologias e penso que isso é só começo. Apesar da crise que afetou a economia em geral, os investimentos em Geotecnologias não param. Há espaço para muita gente ainda. Talvez a Europa nesse momento não seja capaz de investir tanto quanto antes, e por isso os profissionais por lá estão a sofrer com a baixa oferta de empregos.

A América, principalmente os EUA, continuam a demandar muita mão-de-obra na área GIS, mas exigem cada vez mais um perfil mais ligado às Tecnologias da Informação, onde os conhecimentos de programação são valorizados. A África, ainda é um mercado relativamente virgem e tende a expandir em muito as oportunidades.

4. Considera que há boas perspectivas para os profissionais de GEO? Você tem acompanhado as tendência também no Brasil?

Numa visão geral, penso que as Geotecnologias ainda não chegaram ao ponto de saturação, apesar de todo o desenvolvimento, ainda existem deficiencias em muitas partes do globo, quando falamos de uma simples cartografia de base ou mesmo do acesso à internet, quanto mais em soluções avançadas como um WebGIS por exemplo, e isso significa que há ainda muita coisa por conhecer (leia-se gerar negócios e empregos).

Para os profissionais que estão na área, não desistam. Para quem está no começo da carreira ou ainda é estudante, esteja atento às tendências do mercado. O Brasil sempre teve destaque internacional quando falamos em Geotecnologias e apesar de todo o investimento feito, temos ainda muitas carências quando o assunto é cartografia ou mesmo conhecimento dos nossos recursos, ou seja, há muito ainda por fazer e isso vai influênciar diretamente no quanto o mercado vai necessitar de profissionais na área GEO.

Apesar de viver fora do Brasil há mais de 5 anos, acompanho o que me chega pelo mundo virtual e nota-se que há espaço ainda para muita gente. O mercado de VANTs é um bom exemplo de tendência, ainda está no inicio e vai dar muito trabalho (no bom sentido). Há ainda um mundo de oportunidades no Brasil, muitas delas adormecidas, a espera do profissional empreendedor, que esteja disposto a correr o risco.

5. O que você acha que seja fundamental para que um profissional consiga um bom espaço no mercado de trabalho em Geoinformação?

Há tempos escrevi alguns textos no meu website (que infelizmente está fora do ar por questões de segurança) sobre o que era o perfil “perfeito” de um profissional GIS, claro que era uma situação utópica, onde teria que existir um casamento ideal entre o mundo da TI com o mundo da Cartografia. Ninguem sabe tudo, mas acredito que a palavra fundamental para o profissional que quer tornar-se empregável é Flexibilidade.

Independente da área de formação, ser capaz de adaptar-se às mudanças do mercado é imprescindível, ficar limitado à uma plataforma por exemplo (seja proprietária ou open source) para mim é a morte. Isso vale para qualquer parte do mundo. Vi muita gente perdendo oportunidade de emprego por não ser capaz de ser flexível e absorver conceitos e conhecimentos de outras áreas.

6. Com quais softwares para Geoprocessamento você tem trabalhado, desde o início de sua carreira até hoje (comerciais e livres)?

Maioritariamente estive sempre ligado ao mundo ESRI, também tive um bom contato com o Autocad Map no inicio. Mas quando estava na fase do auto-estudo, o SPRING foi essêncial, principalmente na parte conceitual sobre o que é o SIG, ali tem um conteúdo rico e que continua atual. Diria que vale a pena para quem ta começando estudar pelos manuais.

Hoje como trabalho em uma distribuidora ESRI em Angola, África utilizo o ArcGIS a 100% do tempo, mas não abro mão de conhecer o open source. O Quantum GIS (QGIS), para mim, é o melhor software GIS open source atualmente.

7. Comente um pouco de como as Geotecnologias estão diretamente envolvidas com seu atual trabalho.

Nestes dois anos e pouco de Angola, tenho atuado, além de Formador ArcGIS, principalmente como Consultor SIG para o setor OIL&GAS. Diria que as Geotecnologias são uma ferramenta chave nessa área, pois conseguem integrar uma quantidade de dados e de departamentos em um ambiente único e podem ajudar no processo de tomada de decisão onde estamos falando que um erro qualquer pode custar milhares de dolares.

Eu faço uso do GIS, seja na recomendação de uma arquitetura para um cliente, no desenho de um Banco de Dados Geográfico específico para a indústria, na fase de implementação e se for preciso até meter a mão na massa, que em outras palavras, envolve a produção de mapas, migração de dados e analises espaciais.

8. O que você diria sobre as potencialidades do uso de softwares livres para Geoprocessamento?

Os softwares livres são a resposta da sociedade aos altos preços praticados pela indústria privada. Jamais devem ser considerados uma categoria menor, enquanto solução SIG, podem e devem fazer parte de soluções mistas, preenchendo aquilo qe talvez alguma solução paga não faz, ou mesmo substituindo-a por inteiro. Não tenho problemas em falar isso, pois considero que ambos os mundos sejam capazes de trabalhar em conjunto, e não é a toa que a indústria de desenvolvimento de software vez ou outra contribui também ao criar versões não proprietárias de alguns produtos (vide o Mapguide da Autodesk, ou o ArcGIS Editor for OpenstreetMap que é uma extensão open source que funciona dentro de um produto pago como o ArcMap da ESRI).

Todos tem consciencia que o espírito colaborativo do universo open source permite melhorar ou até reinventar algo que foi pensado deuma forma, e por fim produzir algo novo e útil a todos.

9. Você gostaria de fazer algum comentário adicional sobre o tema de nossa entrevista?

Agradeço o convite para a entrevista e espero que seu site continue a ser essa referência que é na Web.

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O Luiz Amadeu concedeu uma entrevista realmente interessante, não é verdade? Ele já publicou alguns tutoriais aqui em nosso site através do Projeto GEOTutoriais. Veja:

Não deixe também de conferir as entrevistas anteriores com Esdras Andrade, Jorge Santos e Augusto Audrin. Aguardamos agora seus comentários!

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Consultor em Geotecnologias, graduado em Geoprocessamento. Instrutor de diversos cursos, presenciais e online, sobre Geotecnologias com Softwares Livres com ênfase em QGIS, gvSIG, PostgreSQL/PostGIS, MapServer e i3Geo.

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8 Responses to Entrevista: Luiz Amadeu – Geoinformação Online

  1. Rubia Gomes Morato disse:

    Parabéns pelo Luiz Amadeu. Parabéns também ao Anderson pela entrevista! É bom conhecer a trajetória dos colegas da área de Geotecnologias.

  2. Damiane Coelho disse:

    Ótima entrevista! Estou no início da carreira e percebi que no caminho certo em aliar a área de TI junto a Geo! Este Mestrado da Universidade de Lisboa foi realizada presencialmente ou à distância?
    Abraços!

  3. Tiago Sousa disse:

    Ótima entrevista! Ainda sou estudante e fico cada vez mais confiante em relação ao futuro que espera os profissionais que vão seguir a área da Geotecnologia.

  4. sicoche disse:

    Parabens pela entrevista.
    pareceu me mais tecnico

  5. Marco Aurélio da Silva Lira Filho disse:

    Exelente entrevista. Dá ânimo e orienta quem está começando a carreira em GEO. Parabéns !!!

  6. [...] Esta é a quarta entrevista da série onde estamos entrevistando profissionais de Geotecnologias que atuam em várias regiões do Brasil e do mundo. Eles vão contar um pouco de sua história no mercado de trabalho, dar sua opinião pessoal sobre o cenário do Geoprocessamento onde vivem, e algo mais. Nosso entrevistado da vez é Luiz Amadeu Coutinho, que trabalha em Angola, no continente Africano.      [...]

  7. Tatiana Pará B. Monteiro disse:

    Muito boa a entrevista … possibilidade de conhecermos os colegas da área.
    Parabéns ;)

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